*Por Antonio Samarone

 

Jackson Barreto foi o rei do voto em Aracaju. A maior liderança do campo popular em Sergipe, nos últimos 40 anos. Em 1985, foi o prefeito mais votado do Brasil. A sua intimidade com o povo era assombrosa: cumprimentava os eleitores pelo nome e sabia detalhes das famílias de cada um. Quando visitava uma residências, dizia-se que levantava até as tampas das panelas. Jackson era daqueles líderes, que se apoiasse alguém, elegia até um poste. E elegeu!

Com duas vagas ao Senado, como ele foi derrotado? Jackson Barreto repetiu o final carreira política de Leandro Maciel, outro grande da política Sergipana, derrotado por Gilvan Rocha, em 1974.

Não foi o efeito da “onda Bolsonaro”, em Sergipe Haddad ganhou disparado no primeiro turno. E o que foi? Numa primeira reflexão, identifico alguns pontos que atrapalharam a caminhada política de JB ao Senado. Vamos a eles:

  1. A briga desnecessária com os professores. Jackson foi orientado a bater de frente com os professores, derrota-los, destruí-los, numa visão equivocada de que o SINTESE era o grande inimigo. Jackson comprou uma briga e herdou um ódio que não eram dele, seguindo conselhos equivocados. A guerra contra o SINTESE expandiu-se para a categoria.
  1. Belivaldo fez a sua campanha como se fosse um candidato de oposição, nada prestava no governo anterior. Ele veio para resolver. Logo no primeiro dia, Belivaldo detonou a inauguração fantasma da Unidade de Nefrologia. Partiu furioso em cima de Zé Almeida (Primo de JB), e se comportou como se nada da gestão Jackson merecesse defesa. Alardeou que, com ele, o pagamento do funcionalismo seria regularizado. Claro, a rejeição à Jackson aumentou.
  1. Por razoes políticas, Jackson assumiu calado o desorganizado segundo Governo de Marcelo Déda; que por razões conhecidas, não andou bem. No final de Déda, o governo foi entregue a um triunvirato petista, que só aprofundou a crise. Não sendo um bom gestor, Jackson Barreto não soube formar uma equipe ligada a ele. Não tinha nem planejamento, nem paciência para governar, e terminou com a fama do pior governo da história de Sergipe.
  1. O Prefeito Edvaldo Nogueira, aliado histórico de Jackson Barreto, trouxe André Moura para Aracaju. Antes da campanha, levou-o de bairro em bairro, de rua em rua, de casa em casa, anunciando obras e uma nova aliança. Na maioria das vezes, André também assinava a ordem de serviço, em conjunto com o Prefeito.
  1. O apoio a Jackson, virou um meio apoio. Edvaldo indicou a André onde estavam os líderes de bairros em Aracaju, os que tinham prestígio. O que não é pouco. Para que não houvesse dúvidas, André Moura foi recebido na Prefeitura uma semana antes da eleição, e a notícia vazou de propósito. Foi o suficiente, André derrotou Jackson em Aracaju.
  1. A intensa, aberta e bem-sucedida campanha do PT para o voto isolado em Rogério Carvalho deu certo. Só ele foi o candidato de Lula. Não falo do pessoal do SINTESE, esse tinha lá as suas razões; falo do conjunto do PT, que salvo exceções, não votou em Jackson Barreto, mesmo com o direito a dois votos para o senado.
  1. Lula e Haddad elogiavam Jackson, o PT estadual desmentia. Jackson precisava desse voto petista, aliás, merecia esse voto, pois o Partido tinha a metade do Governo. A força de Lula em Sergipe, elegeu Rogério Senador.
  1. Somando-se a desconstrução da imagem de Jackson Barreto realizada pelos “aliados” a uma gestão desastrada, a base da derrocada estava pronta. O próprio Jackson, num momento impensado, gravou declarações dizendo que ao final do mandato de governador deixaria a política, e pedia para que ninguém mais votasse nele.

Claro, existem outras causas, e muita gente vai contestar as razões acima apontadas. Mas é como eu vejo, numa primeira abordagem. Com as derrotas de Jackson Barreto e Valadares, encera-se um período de dominação política em Sergipe, iniciada com as eleições diretas para governador, em 1982. 


Antonio Samarone é Médico Sanitarista, Professor de Saúde Pública da UFS e Auditor Fiscal do Trabalho.

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