*Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento

 

Os textos publicados pela imprensa estudantil na década de 30 do século XX cumpriam quatro objetivos: oferecer formação política; forjar a consciência moral e cívica; difundir novos valores sociais; e, oferecer ilustração literária. 

O jornal A Juventude valorizava a natureza, ao colocar em discussão as excursões do Clube de Turismo Instrutivo da Escola Técnica de Comércio Conselheiro Orlando. Também discutia a identidade daquela instituição escolar ao tempo em que levantava questões que diziam respeito às condições sob as quais estudavam os alunos do curso noturno, principalmente os que trabalhavam no comércio de Aracaju. O Colegial publicava comentários sobre o trabalho de escritores e poetas, além de divulgar a criação de jovens poetas. Além disso, veiculava artigos de formação cívica e de exaltação dos valores morais e textos de exaltação a intelectuais e heróis sergipanos, como Tobias Barreto e Camerino. Uma outra discussão frequente era a dos problemas das disciplinas curriculares do ensino médio da época. Do ponto de vista político, o jornal abria bastante espaço para divulgação de artigos escritos por militantes integralistas. Canaan criticava o movimento feminista, e produzia uma memória do Colégio Atheneu, além de divulgar textos literários. Boletim dedicava espaços para a discussão das dificuldades vividas pela imprensa estudantil em função das permanentes mudanças de direção do próprio movimento estudantil e dos problemas de financiamento dos periódicos. O jornal também abria espaços para a poesia. Terra buscava oferecer formação cívica e moral com matérias de homenagem à Igreja Católica, ao Exército, e de valorização dos sentimentos de amor à pátria. Afirmava a identidade do Colégio Tobias Barreto, homenageando a instituição e os seus professores. Os textos dedicados à literatura também ocupavam muito espaço nas suas páginas. O Correio do Colegial manifestava apoio aos interventores que governavam Sergipe na década de 1930, fortalecia nos estudantes o sentimento de amor ao Colégio Jackson de Figueiredo, valorizava a natureza através das excursões pedagógicas, difundia valores cívicos e morais e o amor à pátria.

A análise dos seis primeiros jornais estudantis localizados nos arquivos do Instituto Tobias Barreto de Educação e Cultura e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe apontou para a importância dessa memória que continua à espera de intérpretes interessados em dar-lhe sentido. A primeira responsabilidade dos que se dedicam aos estudos da História da Educação é a de salvamento do acervo. Os documentos se destroem aceleradamente. O que resta nos arquivos é muito pouco. E este mínimo acervo não pode ser perdido. É necessário que além do levantamento feito no IHGS e no ITBEC se proceda uma minuciosa varredura nos demais arquivos sergipanos, não apenas os localizados em Aracaju, mas também os acervos existentes em outras cidades. Esse tipo de documentação nos fala da história da escola sob a ótica das práticas estudantis e do modo como os estudantes se apropriavam e punham em circulação os padrões de uma cultura política que os envolvia. Nos diz também da necessidade de verificar as estratégias adotadas pelo movimento estudantil para fazer com que as vozes das suas lideranças fossem ouvidas. O jornal estudantil representou, em tal contexto, uma forma de expressão política de um grupo emergente na vida social brasileira que se pretendia cada vez mais fazer ouvir. Nessa busca, as lideranças estudantis perceberam a necessidade de romper o estreito limite dos muros escolares e entenderam que a legitimação seria produzida à medida que falassem para toda a sociedade. O espaço da imprensa estudantil foi, portanto, aberto não apenas aos estudantes matriculados nas escolas em que os jornais eram publicados, mas também abrigou estudantes que já tinham ultrapassado o momento dos ensinos secundários e já frequentavam o ensino superior, principalmente em faculdades baianas. Ademais, foram incorporadas contribuições de intelectuais e escritores consagrados que funcionavam como avalistas das práticas políticas estudantis. 

A história de cada um dos jornais publicados por estudantes tem muito a ensinar a respeito da produção e circulação de impressos, da tipografia e da indústria gráfica em geral, da apropriação que faziam os estudantes no relacionamento que estabeleciam com a instituição escolar e nesta, especialmente, com os professores e com os livros aos quais tinham acesso.

É permanente a necessidade de produzir estudos que dêm conta da trajetória de vida dos diretores, editores, redatores e colaboradores dos jornais estudantis. Verificar de quais grupos sociais eram oriundos e a que tipo de estudante dirigiam as suas mensagens. Todos eles deram grande contribuição à circulação dos padrões culturais brasileiros do século XX e certamente incorporaram às suas práticas profissionais muitas experiências que ajudaram a formar a mentalidade brasileira das décadas seguintes. É importante saber das práticas que a vida intelectual do período estudantil impôs a esses sujeitos e como muitos deles irradiaram esses padrões de cultura. A vida estudantil desvelada através dos jornais aqui examinados é reveladora de muitas contradições daquele período: ao mesmo tempo que procurava criar um sentimento de amor para com a instituição escolar, era instrumento revelador dos seus problemas e fragilidades; forjava um discurso cívico de amor à pátria e também denunciava os problemas sociais brasileiros; abria espaços para as manifestações dos jovens comunistas e da juventude integralista; criticava o discurso feminista, mas também dava espaço à presença de mulheres.

Os periódicos examinados nos dizem da intensidade da vida estudantil em instituições escolares públicas como o Colégio Atheneu e a Escola de Comércio Conselheiro Orlando, mas também nos falam da importância de um tipo de instituição escolar para o qual necessitamos olhar sem as viseiras do preconceito: a escola privada e o vigor das suas práticas, como é possível observar através dos jornais publicados por estudantes dos colégios Tobias Barreto e Jackson de Figueiredo.

 

*Jorge Carvalho do Nascimento é Professor do Departamento de História e do Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Federal de Sergipe e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de História da Educação e do Conselho Editorial da Coleção História da Educação da Editora Autêntica.

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