Por: André Rodrigues

Por muitas vezes, por maior que seja a conquista, é preciso considerar as dificuldades que o caminho pode trazer, a luta diária que esse objetivo pode acarretar, e principalmente quem essa trajetória doída pode afetar. Agora considere todas essas variáveis aplicadas a uma das maiores conquistas que a humanidade já alcançou: A Viagem à Lua. Niel Armstrong sempre foi considerado um herói inquestionável, e com O Primeiro Homem, conhecemos suas falhas e glórias, e finalmente nos aproximamos desse ícone na história da humanidade.

Saindo completamente da sua zona de conforto, Damien Chazelle (Whiplash e La La Land) dirige o quarto filme de sua carreira, o qual eu considero o mais ambicioso até aqui, pois se propõe a contar a história pessoal de um dos maiores heróis americanos, Niel Armstrong.

E um dos trunfos do filme é justamente nessa palavra: “pessoal”, a obra não é sobre a missão de ir à lua, e sim a jornada do homem que foi a lua, contando toda sua trajetória, desde piloto, até seu ápice deixando suas pegadas eternamente no espaço. Com essa trajetória, acabamos conhecendo os obstáculos que um objetivo tão audacioso tem, e nos faz pensar se realmente vale a pena continuar nesse caminho que só vem trazendo dor.

Algo tão grande como chegar à lua precisa da renúncia de alguns aspectos da vida, e ao final do longa, nos pegamos refletindo no que é realmente importante para a nossa felicidade, será que vale a pena trocar alguns momentos de felicidade com quem amamos pelo objetivo maior? Esse questionamento é algo que eu não esperaria encontrar em um filme com a temática da corrida espacial, ponto pra Chazelle.

Para interpretar esse personagem que deveria estar perfeitamente na linha tênue entre a indiferença emocional e a reclusão social, e nesse quesito o novo xodó de Chazelle, Ryan Gosling trabalha muito bem, ao longo do filme o personagem que já tem dificuldades de externar emoções sofre tantas perdas que ele se fecha em si mesmo, praticamente criando uma crosta pra se proteger, que o acaba afastando dos seus mais próximos. E é aqui que entra a espetacular Claire Foy como Janet Armstrong, que faz um contra ponto maravilhoso com Niel, sempre “puxando ele para a terra”, mostrando que a família dele está longe de não ter problemas.

A parte técnica do filme é uma obra a parte, simplesmente impecável, desde o cuidado das cenas terrestres na casa de Niel, onde é filmado de um jeito que nos faz sentir nos anos 60, com a granulometria e luz típica da época. Sempre que estamos dentro dos modelos espaciais, Chazelle e o diretor de fotografia nos fazem passar pela agonia que seria estar naquele ambiente extremamente perigoso e assustador, com tudo tremendo a ponto de cair pelos ares.

Mas o filme alcança seu máximo na chegada à Lua, onde se faz a opção de retirar todo o som, fazendo com que tudo que estamos vendo seja amplificado, cada movimento, cada fala, cada olhar ganha uma grandiosidade gigante.

O Primeiro Homem concorre a melhor filme do ano facilmente, tanto pela abordagem extremamente humana, quanto pelo cuidado técnico em todas as cenas, é um filme inspirador, ao mesmo tempo que é grandioso. É um filme que fala sobre morte, que supera a idealização da conquista e nos faz repensar nossas prioridades.

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