(*) Alberto Carlos Almeida

Leitor, esse texto é mais longo do que o usual. Contudo, a análise do resultado da eleição presidencial termina na metade, em seguida há um detalhamento que diz respeito à questão econômica e ao Estado do Rio de Janeiro. É possível parar no meio caso o leitor deseje apenas saber o que elegeu Bolsonaro.

Bolsonaro foi eleitoralmente subestimado pela maioria dos analistas, dentre os quais me incluo, por 2 motivos. O 1º tem a ver com o que o político defendeu e afirmou durante sua trajetória: assassinato de milhares de pessoas, incluindo Fernando Henrique Cardoso, preferir ter um filho morto a um filho gay, ter como livro de cabeceira algo assinado pelo maior torturador da ditadura militar, fraquejar ao conceber uma filha mulher, não estuprar alguém porque esse alguém não o merecia, que torturar e não matar foi um erro, que dar porrada corrigiria um filho gayzinho, que Pinochet deveria ter matado mais gente, que gastaram muito chumbo para matar o Lamarca, pois ele merecia ter sido morto por coronhadas, que ele –Bolsonaro– sofria preconceito heterossexual, para ficar em apenas algumas afirmações.

Muitos de nós, em função de nossos valores, jamais imaginávamos que alguém que falasse essas e outras coisas do mesmo naipe pudesse ter a maioria dos votos dos brasileiros. A nossa crença era de que o brasileiro médio é pacífico, cristão, que valoriza a vida e a convivência humana harmoniosa, e que por isso, ao ser informado das falas e dos valores de Bolsonaro, iria passar a rejeitá-lo e não o elegeria. O mesmo fenômeno aconteceu com Trump nos Estados Unidos. O brasileiro média não mudou, porém ele desconsiderou tais características de Bolsonaro, e isso tem a ver com o que motivou o voto que lhe deu a vitória.

O 2º motivo que resultou em sua subestimação eleitoral é o conjunto de variáveis políticas. Note-se que o símbolo maior deste fato foi a dificuldade de Bolsonaro conseguir um vice para a sua chapa. Foram feitas várias tentativas e aquele que viria a ser a futura deputada mais votada do Brasil, Janaína Paschoal, submeteu o candidato à humilhação de esperar a sua resposta. Ninguém que tivesse um pé na política aceitou. Bolsonaro teve que raspar o fundo do tacho para conseguir uma pessoa que aceitasse ser seu vice. Ele tentou obter apoio dos partidos do “centrão”, mas não teve sucesso. A consequência foi catastrófica: sua campanha não teve apoio de governadores, teve um tempo de TV irrisório e recursos oficiais microscópicos.

Portanto, a combinação entre uma imagem de autoritário, “fascista” e doido de pedra junto aos formadores de opinião com a ausência de recursos políticos relevantes resultou na subestimação de sua candidatura por um amplo segmento de pessoas. Aqui entra o motivo que levou Bolsonaro a vencer a eleição presidencial: a situação da opinião pública.

Em 2014 a candidatura de Marina terminou o 1º turno com 21,32% de votos válidos. Quem a escolheu não queria nem PT, nem PSDB. O voto em Marina era, de alguma maneira, o voto daqueles que rejeitavam os 2 principais partidos que até então disputavam com chances de vitória a eleição presidencial.

Ocorre que de 2014 para cá a situação do sistema político piorou. A crise econômica profunda e abrangente foi combinada com escândalos de corrupção nunca antes vistos na história do país. Agregue-se ao sistema o antigo PMDB e atual MDB, que sempre esteve presente nas alianças governamentais. Nos últimos 4 anos vimos o desemprego aumentar, o poder de compra da população despencar, e o noticiário afirmar que o sistema político é inteiramente corrupto. As imagens televisivas de tubulações de esgoto jorrando dinheiro, superpostas àquelas telas retangulares com a legenda de gravações entre políticos negociando propinas, rechearam o noticiário assistido pela maioria dos eleitores.

Assim, nosso eleitorado chegou a duas conclusões simples: a atividade política é uma atividade criminosa, e todos os nosso males existem por causa da corrupção.

De posse dessa visão de mundo os eleitores passaram a procurar um candidato que a representasse, e aí encontraram Jair Bolsonaro.

O voto que levou Bolsonaro a vencer foi um voto antissistema. É interessante que ele tenha sido verbalizado durante a campanha como um voto anti-PT quando 30% de todo o eleitorado afirmava que “não votaria em um candidato do PT de jeito nenhum” e Bolsonaro teve 46 e 55% dos votos respectivamente no 1º e 2º turno. O voto exclusivamente anti-PT não teria levado Bolsonaro à vitória.

Na realidade os resultados eleitorais tomados em conjunto, e relativos ao governo federal, isto é, eleição presidencial, para deputados federais e senadores mostra que o sistema, para os eleitores, era composto de PT, PSDB e MDB. Esses 3 partidos foram os que mais sofreram perdas. PSDB e MDB foram claramente preteridos pelo eleitor na eleição para deputado federal em favor de marinheiros de 2ª viagem. Para dificultar mais o início do processo legislativo, nada menos do que 23% (118) dos deputados federais eleitos nunca exerceram mandato algum, sequer de vereador. Até mesmo nas eleições estaduais PSDB e MDB perderam mais governadores do que o PT.

Se o voto em Bolsonaro tivesse sido simplesmente antipetista o partido de Lula não teria saído da eleição com a maior bancada de deputados federais, não teria sido o partido que menos perdeu senadores proporcionalmente, comparando-se com os demais partidos associados ao sistema, não teria perdido apenas um governador de Estado, nem teria alcançado 45% de votos presidenciais no 2º turno.

O voto em Bolsonaro foi, certamente, para retirar o PT do poder, mas porque ele, como PSDB e MDB, fazem parte de um sistema no qual a corrupção é a causadora do desemprego, do péssimo atendimento de saúde, do baixo nível do desempenho de nossos alunos em testes como o Pisa, e da violência e assassinatos generalizados. Portanto, Bolsonaro foi eleito para acabar a corrupção, preferencialmente, se possível, com a ajuda de Sérgio Moro e de outros juízes a ele assemelhados. Vale rememorar duas de nossas eleições presidenciais.

Em 1994, o Fernando Henrique foi eleito porque o principal problema do país nos anos anteriores, desde pelo menos 1986, havia sido a inflação. Fernando Henrique tinha o currículo adequado para isso, ao menos a partir do 2º semestre do ano de sua 1ª eleição. O candidato que dominou o principal tema da campanha venceu. Oito anos mais tarde o 2º governo de Fernando Henrique estava mal avaliado. Lula havia disputado várias eleições presidenciais, o eleitorado o conhecia como sendo o ex-sindicalista, líder dos movimentos sociais, e muito comprometido em defender os trabalhadores. Assim, quando ele fez a proposta de gerar 10 milhões de empregos, ele tinha credibilidade para isso. O Serra não tinha porque pertencia a um governo que havia destruído empregos.

É possível desenhar o resultado de todas as eleições presidenciais, ou melhor, quase todas no Brasil e no mundo mostrando que o candidato que se torna o dono do principal problema, aquele que transmite ao eleitor a imagem que irá resolver o principal problema, acaba sendo o vencedor.

Bolsonaro é o cavaleiro solitário, independente dos partidos, que vai dar um jeito nesse sistema. O principal representante do sistema é o PT, porque ficou 13 anos na Presidência, o poder mais visível do país. O carimbo negativo do sistema é a corrupção. O sistema inteiro foi carimbado por ela. Daí o péssimo desempenho de MDB e PSDB. Nesse sentido, vale repetir, o PT se saiu muito bem.

A análise dos condicionantes da vitória de Bolsonaro se encerra aqui. Tudo lido acima é suficiente para entender o que o levou a ser escolhido para ocupar o Palácio do Planalto. Porém, caso o leitor queira se alongar nesse texto, há duas coisas que merecem um tratamento em separado, uma é a dificuldade que o candidato do PT teve de dominar os temas econômicos, a outra é a votação do PT no Estado do Rio de Janeiro.

Pesquisas públicas da reta final do 2º turno revelaram que Bolsonaro se saia melhor do que Haddad como o candidato que iria gerar mais empregos e fazer o Brasil votar a crescer. Esse resultado foi possível graças à crise econômica que teve início no 1º governo Dilma, que inclusive fez com que ela derrotasse Aécio por uma margem pequena, e que se agravou em seu 2º mandato. O eleitorado se lembra desse período. E aqui entra a resposta a um enigma: por que nas pesquisas feitas antes da eleição Lula tinha muito mais votos do que Haddad? Por que o seu indicado ficou tão distante dos votos que Lula tinha? Isto é, muitos eleitores que declaravam voto em Lula, quando Lula saiu passaram a votar em Bolsonaro e não em Haddad que é do PT e tinha o apoio de Lula. Por quê?

Votar em Lula era sinônimo de sair da crise. Nesse aspecto o eleitor separava 2 governos do PT, o governo Lula e o governo Dilma. Se fosse para reviver os bons tempos do governo Lula, tudo bem, o eleitor aceitava votar nele, porém, uma vez que Lula não seria o candidato um segmento importante se sentiu livre para votar em alguém que representasse alguma esperança de mudança. Lula eleito seria bom, seria a volta a uma vida de melhorias, seria o resgate de um passado feliz, seria o mesmo que trazer esse passado para o tempo presente. Bolsonaro eleito seria uma tentativa de mudança. Há implícita nessa escolha a má avaliação do governo Dilma, e neste caso, nem Dilma é Lula, e nem Haddad é Lula. Bastaram 7 milhões de eleitores (um estado do Paraná) pensando assim para transformar o resultado de 2014 no resultado de 2018.

Passando para o que aconteceu no Estado do Rio de Janeiro, vale mencionar que na avaliação por Estado a maior perda de votos do PT –comparando-se o 2º turno de 2014 com o de 2018– foi lá, a perda foi de 42%. Em 2014, Dilma teve 54,9% dos votos naquele estado e agora Haddad teve 32,1%. O desempenho no Estado do Rio foi tão ruim que se igualou a São Paulo que já rejeita o PT faz tempo (no Estado de SP a votação de Haddad foi 32%).

Em 2013, as pesquisas que coordenei no início do ano mostravam que a população do Rio estava muito insatisfeita com a reforma do Maracanã. Circulava junto à população que os gastos eram muito elevados, que havia superfaturamento, e as pessoas relacionavam isso com a crise da saúde pública no Estado. Isso, repito, no início do ano. Quando vieram as manifestações, não sei se o leitor se recorda, as maiores foram no Rio. Houve uma cujas estimativas ficaram em torno de 500 mil pessoas nas ruas, mais exatamente na Av. Presidente Vargas no centro da capital. Depois vários acontecimentos se sucederam, Pezão ficou doente, se retirou do governo, Dornelles assumiu e o Estado quebrou. A crise financeira caiu também no colo de Eduardo Paes, que nada tinha a ver com isso. Consequentemente sua avaliação na prefeitura despencou e ele sequer conseguiu levar o deputado Pedro Paulo, seu candidato, para o 2º turno da eleição de prefeito.

Não bastasse isso vieram as Olimpíadas e junto com ela várias denúncias de gastos elevados, que sempre eram confrontados com a situação dos serviços públicos na capital e no Estado. O Rio de Janeiro também sofreu muito com a paralisação das obras do Comperj. O impacto no desemprego foi muito forte. Alliás, cumpre registrar que a taxa de desemprego do Estado é a maior da Região Sudeste. Adicione-se a isso a crise da Petrobras, cuja sede fica no Rio, e a redução das receitas advindas dos royalties do petróleo, que feriram gravemente o orçamento de inúmeras prefeituras e do próprio governo estadual.

Depois disso tudo Sérgio Cabral e vários de seus assessores próximos foram presos. Essa foi, para o eleitorado do Estado, a prova definitiva que a crise era resultado da “roubalheira de Sérgio Cabral”. A situação se agravou demais em função de todo o simbolismo das posses de Sérgio Cabral: casa luxuosa em Mangaratiba, iate, viagens a Paris e, não bastasse tudo isso, um anel dado de presente para a esposa no valor de 800 mil reais.

Durante o governo Cabral um dos temas mais batidos pela comunicação de governo era a parceria e a união com o governo federal. Assim, no Rio, PMDB e PT estavam com suas respectivas imagens fortemente unidas. Essa comunicação era importante porque o Rio sempre tinha sofrido com as brigas de seus governadores –Brizola e Garotinho– contra o governo federal. Assim, o que foi muito bom no momento de bonança se transformou em um enorme problema no momento de crise aguda. Adicione-se a isso a tibieza do PT no Estado, que permitiu inclusive que o Psol herdasse os votos de esquerda. De um modo geral, onde o PT é eleitoralmente fraco o Psol acaba por se fortalecer.

Não se pode falar de crise no Rio sem tocar no problema da violência, ele é absolutamente generalizado. Nas áreas pobres da cidade e da região metropolitana o crime domina, vê-se criminosos circulando livremente com armas, sem contar as áreas que são proibidas a circulação de pessoas não autorizadas pelos criminosos, com os limites físicos das barricadas. Nas áreas não pobres ou ricas o crime também aparece por meio de arrastões, blitz falsas, assalto a shopping e a bancos, tiroteios em favelas que resultam no bloqueio de ruas e avenidas. Por fim, todo isso em um estado e em uma região metropolitana com uma grande população pobre e evangélica. Ela se tornou o principal meio de circulação da informação na campanha, seja nos cultos ou em seus grupos de WhatsApp.

O resultado final foi que o Rio castigou fortemente tanto o PMDB, não elegendo Eduardo Paes disfarçado de DEM, quanto o PT, dando uma votação irreconhecível considerando-se o histórico das 4 eleições presidenciais anteriores.

A título de comparação, em Minas Gerais a redução da votação do PT foi bem menos acentuada, em 2014 ela foi de 54,2 no 2º turno e agora foi de 41,8. É possível que a avaliação do governo Pimentel tenha tido algum impacto, a soma de ótimo e bom dele era bastante baixa, da ordem de 25%. Também em Minas a crise nacional influenciou a votação das pessoas mais pobres no PT. Foi a 1ª vez desde 2002 que o PT teve menos de 50% de votos no 2º maior colégio eleitoral do Brasil.

Por fim, vale mencionar duas coisas. No terreno da análise a lição que retiro desse processo eleitoral tem a ver com o peso atribuído às variáveis que interferem no voto. Aprendi que o mais indicado é dar menos peso às variáveis políticas e mais peso àquelas que dizem respeito à opinião pública.

A 2ª coisa tem a ver com o mundo político. Os seres humanos em geral, mas os políticos em particular, gostam de acreditar que controlam tudo, que têm ingerência sobre 100% dos acontecimentos. Essa minha análise que combina contexto da eleição e imagem do candidato revela que é possível sim controlar alguma coisa, mas mostra também que há fatores fora de controle, como é o caso, em geral, do contexto da eleição. Ele foi construído independentemente da vontade dos atores políticos. Ele definiu a vitória de Bolsonaro e as expectativas geradas por ele. Vejamos agora se ele será capaz de atendê-las.


* Alberto Carlos Almeida, 52 anos, é sócio da Brasilis e do Inteligov. É autor do best-seller “A cabeça do Brasileiro” e diversos outros livros. Foi articulista do Jornal Valor Econômico por 10 anos. 

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