Bebianno teria ligações com o Grupo Globo

COMO BEBIANNO VIROU DESAFETO DE BOLSONARO ?


Para entender a dimensão do episódio é necessário levar em conta que o Palácio do Planalto tem 1 presidente da República e 4 ministros de Estado. Trabalham juntos no mesmo edifício. Avistam-se nos corredores. Convivem intimamente.

Gustavo Bebianno (Secretaria de Governo) é 1 dos 4 ministros palacianos. Ou seja, é 1 dos assessores com os quais o presidente da República precisa ter relação completa de confiança.

O ministro é suspeito de organizar e/ou participar de 1 esquema para mandar dinheiro do Fundo Partidário do PSL para candidatas laranjas em 2018. No ano passado, Bebianno foi presidente nacional do PSL, sigla à qual Bolsonaro é filiado.

A lei manda os partidos darem 1 parte do dinheiro do Fundo Partidário para mulheres. As siglas são negligentes. Não conseguem construir candidaturas femininas competitivas. Os valores acabam indo para algumas candidatas sem chances de vitória. Depois, os recursos são usados em outras campanhas –na melhor das hipóteses.

Esse tipo de operação é corriqueira na política. Pode ou não ter ocorrido corrupção pesada. É possível também que tenha sido uma manobra contábil para tentar cumprir –ainda que de maneira imprópria– o que determina a Lei Eleitoral sobre distribuição de recursos para candidatas mulheres.

Ocorre que Bebianno começou a ser fritado após o conhecimento do caso. O ministro concedeu uma entrevista ao jornal O Globo na 3ª feira (12.fev.2019). Dizia ter conversado com o presidente no dia anterior e tudo estar tranquilo na relação com Bolsonaro, sem crise.

Carlos Bolsonaro, filho do presidente, publicou no Twitter que o ministro era mentiroso. Que não teria havido nenhuma conversa. E sem falar no real controle das mídias sociais do pai, o presidente Bolsonaro, então, tudo que sai no Twitter tem o dedo de Carlinhos.

O pai, Jair Bolsonaro, endossou o filho também no Twitter. Fez ainda mais: deu uma entrevista à TV Record e desautorizou o ministro.

Em suma, pai (Jair) e filho (Carlos) chamaram Bebianno de mentiroso.

Na realidade, as conversas entre o presidente e o ministro se deram por mensagem lacônicas via áudio transmitido pelo aplicativo Whatsapp. Bolsonaro ainda estava internado no Hospital Albert Einstein.

Não era inteiramente uma inverdade dizer que houve conversas entre Bolsonaro e Bebianno. Ou seja, o ministro não mentiu exatamente sobre isso.

Mas certamente era uma interpretação elástica da realidade afirmar que estava tudo tranquilo entre o presidente e o ministro. Esse foi o deslize de Bebianno e pelo qual foi castigado por Carlos Bolsonaro.

Mas houve também 1 outro fator complicador. Na mesma 3ª feira desta semana Bolsonaro ordenou a Bebianno que cancelasse uma audiência que teria com o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo.

O encontro foi cancelado:

Os Bolsonaros acreditam que Bebianno tem uma relação de extrema proximidade com os veículos de comunicação do Grupo Globo.

Exemplo: Bebianno estava com uma viagem programada nesta semana para o Pará, onde discutiria com autoridades locais possíveis obras como uma ponte sobre o Rio Amazonas na cidade de Óbidos. Iriam também os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos). Foi tudo cancelado quando Bolsonaro descobriu que o ministro da Secretaria Geral havia convidado uma jornalista do Grupo Globo para ir junto.

As coisas pioraram quando o presidente tomou conhecimento de que Bebianno passou a mostrar gravações em áudio para várias pessoas, políticos e jornalistas. Os arquivos de áudios continham a voz de Bolsonaro dando instruções para o ministro da Secretaria Geral.

Um desses áudios, sobre cancelar uma reunião com o representante do Grupo Globo, foi mostrado até para integrantes da empresa de comunicação.

Nessa gravação que havia enviado via Whatsapp, Bolsonaro dizia a Bebianno: “Como você coloca nossos inimigos dentro de casa?”.

Na manhã desta 6ª feira (15.fev.2019), no Palácio do Alvorada, Bolsonaro recebeu os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Santos Cruz (Secretaria Geral) e a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP).

Os 3 tentavam convencer o presidente a se acalmar e tentar superar o episódio, sem demitir Bebianno. Do seu jeito, expansivo, Bolsonaro reagia de maneira dura: “Ele atua como X9”.

“X9” é uma gíria para designar 1 agente infiltrado.

No final da manhã, Bolsonaro a contragosto declarou que estava disposto a pensar e talvez não demitir Bebianno. Vocalizou a decisão do seu jeito: “Então, tá. Deixa esse f.d.p. lá que eu vou ver o que faço com ele no governo”.

No restante do dia, como está descrito acima neste post, a situação voltou a se deteriorar.

O desfecho só deverá ser conhecido na 2ª feira (18.fev.2019), quando o governo publicar no DOU (Diário Oficial da União), a exoneração de Gustavo Bebianno.