Sergival e a festança do sertão

Por aqui, toda semana, visibilidade para as tantas identidades que integram o nosso povo. Este é o Sinal de Cultura. Bem vindo! Bem vinda!

Foto: Ana Miglliari

 

SERGIVAL E A FESTANÇA DO SERTÃO

Natural de Nossa Senhora da Glória (SE), Sergival iniciou sua carreira musical como flautista, mas obteve destaque como percussionista de efeitos, experimentando novos timbres, criando seus próprios instrumentos com sucatas, brinquedos e artesanato sergipano. É o caso da Noviola (um híbrido de violão e viola com nove cordas), criada em parceria com o também sergipano Luthier Elifas Santana. Festança, seu mais recente CD, é resultado de 30 anos de carreira, e passa pelos principais tipos da musicalidade nordestina. Isso, devido a sua infância e juventude nômades que, por conta da profissão de topógrafo de seu pai, o levou a viver no interior dos estados de Sergipe, Bahia e Pernambuco, agregando elementos regionais que hoje compõem o conjunto de sua obra.

São notórias nas referências em seu trabalho de cantor e compositor, a valorização de uma mistura carregada de ritmos dos muitos grupos folclóricos nordestinos, sobretudo os sergipanos. “A cultura sergipana é fundada sobre os pilares do folclore. O estado possui uma concentração de mais de setenta grupos autênticos, que surgiram do saber dos mestres e que passam de geração em geração. Do cotidiano do sertanejo, do camponês que sabe o dia certo para plantar o milho e ter boa colheita, e de todos os conhecimentos dos mais antigos”, explica.

Sergival foi um dos fundadores da Band’Auê, grupo regional do qual fez parte e marcou época na história musical de Sergipe, na década de 80. Daí em diante, sua versatilidade natural o fez atuar profissionalmente em diversos segmentos artísticos, rendendo títulos como o de Menestrel Sergipano, tendo representado o estado de Sergipe em diversos momentos pelo Brasil e no exterior. Em paralelo à sua produção artística, nosso conterrâneo é desenhista de Geologia da Petrobras e, por isso, mora no Rio de Janeiro. Por lá, Sergival apresenta o programa “Puxe o Fole”, nos domingos da Rádio Nacional, das 12h às 14h (retransmitido por aqui na Rádio Aperipê).

Foto: Sergival entrevista Dominguinhos / Acervo

Como não poderia ser diferente, nosso artista também comenta sobre os Festejos Juninos: “Há muito que os Festejos Juninos deixaram de ser exclusivos do nordeste brasileiro. De norte a sul do país, nas escolas, nas quermesses das igrejas, clubes e eventos públicos os arraiás acontecem com suas bandeirolas, fogueiras e grupos de forró. Virou uma festa tradicional e obrigatória no calendário da terra brasílis. Claro que em nada se compara a grandeza e tradição das realizadas nos principais festejos realizados no Forrócaju, Campina Grande, Caruaru e cidades nordestinas tradicionais como Amargosa na Bahia, Estância e Capela em Sergipe”.

E declara que, apesar da invasão de ritmos alheios às festas juninas como o sertanejo e o arrocha, o forró de raiz sobrevive como nossa maior marca: “é a identidade de nosso povo nordestino, estando prestes a se tornar Patrimônio Imaterial e Cultural do Brasil pelas mãos do IPHAN e de um grupo de abnegados que estão promovendo a realização de fóruns por todo o país para concretizar esse objetivo”. Observa também que, há poucos dias, o Ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão esteve em Aracaju para anunciar que Sergipe foi escolhido como piloto para um estudo federal que será realizado durante todo o mês de junho para avaliar através do projeto “Cultura gera futuro” toda a cadeia produtiva e de geração de renda dos festejos juninos no estado. “Claro que além de gerar empregos e movimentar a economia do estado em diversos segmentos, esse estudo também servirá para levantar as potencialidades turísticas dessa que é a nossa maior festa e também para registrar elementos tradicionais como o barco-de-fogo, o licor, as comidas típicas e a força de nossas Quadrilhas Juninas”, explica.

Foto: Divulgação

Sobre trabalhar com cultura popular, Sergival comenta que é um caminho pedregoso e de retorno financeiro precário: “Nem tudo da cultura popular é transformado em produto para se vender, mas quem começa não quer mais parar. Tanto é que eu e alguns companheiros estamos nos empenhando no sentido de criar uma música, um gênero sergipano, aproveitando, para isso, as células rítmicas dos grupos folclóricos que existem em Sergipe”, explica. E, para finalizar, acrescenta: “Não podemos esquecer também a qualidade de nossos artistas forrozeiros como Erivaldo de Carira, Amorosa, Vinícius XoteBaião, Mestrinho que se tornou o principal sanfoneiro do país, e tantos outros, modestamente a exemplo deste Sergival aqui que vos fala…”

Rapidinhas

– Exposição “Bodegas: Memórias de Aracaju e o Ciclo Junino”, na Secult (Rua Vila Cristina, 1051, 13 de julho, Aracaju), nesta quinta (07), a partir das 10h30

– Funcaju prorroga inscrições, até 15 de junho, para os músicos que desejam participar do projeto “Quinta Instrumental”. O cadastro acontece no site: mapa.cultura.aracaju.se.gov.br  e o resultado será divulgado em 22 de junho, também no Mapa. Novo cachê: R$ 900 reais

– Próxima segunda, 11/06: Dia do Barco de Fogo, em Estância (SE). A programação inclui show logo de manhã com Trio Pé de Serra, na feira do centro; inauguração do Memorial do Fogo, no Memorial Cultural, às 16h; e ainda, apresentação de quadrilhas, espetáculo com 11 Barcos de fogo e shows de Cabeça de Frade e Fábio D’ Estância, no  Arraial Zé Taquari, a partir das 20h.


Não poderia finalizar sem agradecer a simpatia do sempre amigo Sergival que, mesmo na correria do trabalho, se dispôs a dar as declarações para esta coluna.

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