Flamengo está ótimo, mas e a indenização dos meninos mortos no CT?

Neste momento vivemos um endeusamento do Flamengo, muito bem comandado em campo pelo seu mister. Eu mesmo às vezes me pego exaltando a movimentação e a coragem da equipe rubro-negra, ávido por ver o futebol brasileiro retomar seu lugar no cenário internacional.

Mas quando saio por aí falando que o Flamengo tem tudo para ser o maior time brasileiro do século, uma vozinha interior fica sussurrando e não me deixa mergulhar na sedução. “E os meninos?” É a pergunta que ouço.

Costuma surgir então uma outra voz, mais empolada, cheia de teorias e demonstrando uma aparente imparcialidade, características que têm sido tão comuns em muitos jornalistas e ex-jogadores hoje, que tentaria calar aquela anterior: “Também sou contra o que houve, mas é preciso separar as coisas”, reage essa voz, tentando demonstrar uma maturidade falsa.

Puro cinismo. Típica frieza que serve para acomodar e se disfarça de objetividade. Não é porque eu sou jornalista que eu tenho de ser neutro em relação ao nazismo, por exemplo. Há o certo, há o errado, há valores que estão acima de nós e que não podemos nos calar com trajes de neutralidade.

E não está certo que meninos percam a vida sem que nenhuma providência efetiva seja tomada. Até agora não há responsáveis. Tampouco uma indenização minimamente digna para quem não pode compensar as perdas.

Em 8 de fevereiro último, um incêndio no “Ninho do Urubu” do Flamengo matou 10 garotos das categorias de base e deixou 3 feridos. Os que se defendem se acomodam na tese da “fatalidade”, em um CT que já vinha sendo alvo da Justiça desde 2012, por causa de irregularidades.

Antes mesmo de ficarem louvando o bom trabalho de Jorge Jesus, seria um momento em que todos, dirigentes, jornalistas e até torcedores deveriam dizer: “Parem as máquinas!” Quando embarca para este tipo de alienação, o futebol deixa de ser saudável.

Nas análises táticas, os especialistas da bola enchem o peito para falar do futebol europeu. Para detonar o estilo do futebol brasileiro, empobrecido neste momento. Têm até razão, se não passassem a impressão de estarem satisfeitos com isso.

Mas, mais importante do que isso, seria usar a Europa como referência em outro aspecto, infinitamente mais importante. Lá, clubes caem de divisão quando não pagam dívidas. Ou quando a gestão comete falhas graves.

Como estariam os dirigentes de um clube europeu que tivesse responsabilidade por jovens jogadores terem morrido queimados? Como estariam se sentindo os familiares? Abandonados? Teriam eles de suar sangue para obter uma indenização minimamente justa, que respeite a carreira que os jovens não puderam ter?

É um típico caso que, em nome da moralidade, a marca do clube não poderia ser divulgada de forma tão festiva. Esquemas táticos não poderiam ser reverenciados. Não poderia haver celebração enquanto, no mínimo, as indenizações não fossem acertadas.

Não, definitivamente, este não é um dos maiores anos da história do Flamengo. É o pior, porque a campanha brilhante em campo está sendo capaz de apagar da memória a dor de uma mãe que nunca mais poderá ver o brilho no olhar de seu filho. Uma coincidência irônica e dura.

Um acordo sugerido pelo Ministério Público em uma câmara de conciliação faria o clube pagar R$ 2 milhões a cada família e R$ 10.000 mensais de pensão até 45 anos completados pelas vítimas caso estivessem vivas. O Fla resiste, o processo se arrasta cruelmente.

Por outro lado, foram gastos R$ 190 milhões em contratações. Gastos que não foram direcionados a alojamentos melhores. Mesmo com o clube jurando que planejava fazer algo de primeiro mundo, os jovens não poderiam ter ficado um dia sequer em um local sem a segurança necessária.

E não há argumento orçamentário, forma de pagamento, tabela de receitas e despesas que me convençam de que são situações distintas. O cofre, afinal, é o mesmo. Os dirigentes também.

O objetivo principal do clube agora parece ser atrair mais patrocinadores, mais fama, mais poder, mais dinheiro. O provável título da Libertadores pode ser até um novo alento ao futebol brasileiro e impulsionar a sua recuperação.

Às custas do sono dos responsáveis, dos “imparciais” e dos que acham que não podem “dar mole” para nenhum familiar. São estes que comemoram as vitórias durante o dia, mas, à noite, não conseguem dormir. No silêncio da consciência, o travesseiro sussurra as mesmas palavras que vêm aos meus ouvidos: “E os meninos?”

ItapebiAcontece / R7 -Eugenio Goussinsky