O jornalismo ruma incerto na era das certezas, analisa Edney Cielici Dias

Jornais impressos expostos na banca da rodoviária. 23-01-209. Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Mas mudou o papel do jornalista?


Faz umas boas décadas, nos acostumamos a conviver com a crise da imprensa. Esta ganha paulatinamente novos contornos com a reconfiguração dos meios tecnológicos e um ambiente de radicalização e empobrecimento da política, questões ainda a serem mais bem compreendidas e processadas pelas sociedades.

As transformações, em perspectiva histórica, foram muito rápidas. O livro “Do Palácio ao Bordel – crônicas e segredos de um jornalista brasileiro em Londres”, de Antonio Carlos Seidl (Grua, 2018), é uma bem construída sucessão de flashbacks de um passado não muito distante no tempo, mas de contexto bastante diverso da imprensa e da expressão política.

Seidl revisita sua produção de 1985 a 1992, período que corresponde, na perspectiva internacional, à ostensiva reação liberal de Reagan (1981-1989) e de Thatcher (1979-1990) e o fim da União Soviética (1991). No Brasil, representou a volta dos civis ao poder com Sarney (1985-1990) e a eleição direta de Collor (1990-1992).

Naquele tempo, comecei meio que por acidente a trabalhar no mesmo diário do qual Seidl era correspondente, a Folha de S.Paulo, então caracterizada por um projeto editorial inovador e que logo a transformaria no principal jornal brasileiro.

O contexto econômico propiciava que as principais publicações nacionais dispusessem de profissionais qualificados no exterior de forma estável. A principal estrela da Folha era, naqueles tempos, o polêmico correspondente de Nova York, Paulo Francis.

O tradicional O Estado de S.Paulo, cujos exemplares dominicais eram verdadeiros fardos de lucrativos anúncios, possuía uma extensa rede de correspondentes pelo mundo. Do Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil e O Globo tinham fortíssima influência nacional e alta capacidade de cobertura.

Entender o que se passava, ter poder de opinião e de exercer influência, implicava processar diariamente toda essa massa de papel impresso que empretejava de tinta as mãos.

O livro de Seidl possibilita revisitar esse passado. As informações da época são enriquecidas com os bastidores das reportagens e sutil humor. Serve de exemplo, sobretudo, o alto astral, a disposição de ouvir personagens e sondar tendências de maneira aberta e intrigante. Era uma vez…

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O jornalismo consolidado nos séculos 19 e 20 esbarrou na revolução da internet. Os jornais tiveram queda vertiginosa de suas receitas: anúncios, assinaturas e venda avulsa.

Vive-se a era pós-gutenberguiana, isto é, a da imprensa sem papel, de produção e difusão acessível a todos. As empresas de comunicação se fragilizaram, o trabalho na imprensa é aviltado. A reportagem densa e reveladora virou artigo de luxo e vem morrendo aos poucos.

Os meios tecnológicos certamente são decisivos, mas a questão substantiva, o papel social da informação, teria sido reconfigurada?

Max Weber, em seu ensaio clássico “A política como vocação”, apontou uma tensão inerente ao trabalho jornalístico, algo sarcasticamente notado por Balzac. De um lado, uma nobre profissão a exigir alta qualificação intelectual, boa pena e sensibilidade; de outro, a tentação ao apelo fácil, à superficialidade, à demagogia característica dos líderes carismáticos.

Nesta época de política-brucutu, a tensão weberiana está aí para lá de exacerbada. O pensamento crítico é malvisto. As facções ideológicas estão sempre convencidas de suas certezas inabaláveis. Para a turba digital enfurecida, jornalista bom é o que reafirma os preconceitos da tchurma.

A despeito desse cenário, o papel social do jornalista não mudou. A democracia, a sociedade aberta, necessita do bom jornalismo e vice-versa. Não acredito que haja respostas fáceis para os atuais problemas. Tampouco se veem bons sinais no horizonte. A luta está aberta, no entanto.

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Figura remanescente da época dourada dos jornais, o cronista esportivo Roberto Avallone se foi na semana passada. Folclórico, palmeirense empedernido, era remanescente de um tempo em que as torcidas dividiam estádios, que os ídolos do esporte eram respeitados e se faziam respeitar.

Avalone era ícone de expressão regional, bem paulistana, mas também um pluralista, respeitado por todas as camisas e cores. Tinha personalidade e… bom astral, estes artigos ora escassos.

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Trabalhei na imprensa diária por exatos 20 anos e cinco dias. Desempenhei todas as tarefas dessa profissão. Resolvi mudar de vida em 2007, retomando uma rota que involuntariamente havia deixado nos anos 80. Um notável editor, responsável por eu ter entrado no mundo dos jornais, disse então que eu havia criado juízo. Discordo.

Volta e meia, sinto vontade de adrenalina, de sair à cata de uma bela reportagem, daquelas que dão trabalho, vão contra o saber convencional e mudam a visão que se tem das coisas. Desse cacoete não me livro e procuro aplicá-lo no que quer que eu faça.

Vício é vício.

Edney Cielici Dias, 55 anos, doutor e mestre em ciência política pela USP, é economista pela mesma universidade e jornalista.

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